I Congresso Nacional do Partido da Cultura reúne centenas de pessoas de diversos movimentos culturais
Depois de vivenciar oito anos de intensos avanços na política cultural do país durante a gestão Gilberto Gil e Juca Ferreira, em 2011 os movimentos culturais do Brasil tiveram de enfrentar diversas dificuldades e empecilhos para promover o desenvolvimento do setor com a nova gestão do Ministério da Cultura. Editais não foram realizados, repasses de verbas foram atrasados e políticas culturais essenciais para a cultura do país ficaram ameaçadas com a nova postura adotada pela pasta. O que poderia se tornar um desastre para o desenvolvimento da cultura, no entanto, acabou fornecendo combustível para que diversos agentes e movimentos se unissem e se organizassem em torno de um projeto de desenvolvimento para o pais, no qual a cultura ocupa um lugar de destaque.
Durante o Congresso do Partido da Cultura, realizado nessa sexta, dia 16, em São Paulo, centenas desses agentes e movimentos culturais se reuniram para discutir os problemas enfrentados durante o ano, sugerir propostas e traçar estratégias para fomentar o desenvolvimento cultural do país em 2012. Nas mesas de discussão estavam a Deputada Federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que enfatizou a impossibilidade de se discutir o desenvolvimento econômico do Brasil sem pensar a cultura. A deputada também lembrou do retrocesso com a diminuição do orçamento do Ministério da Cultura para 0,08 do orçamento federal. Célio Turino, criador do Programa Cultura Viva durante a gestão Gil, reforçou o discurso da deputada apontando a necessidade de se refletir sobre o padrão de desenvolvimento que queremos para o Brasil e de se rediscutir o sentido da democracia em que as pessoas podem se apresentar como sujeitos no processo. Ao perguntar quem da platéia com cerca de 300 pessoas era filiado a algum partido, ficou claro a autonomia do movimento, quando menos de 10 pessoas levantaram a mão.
Depois de uma pausa para o almoço o Congresso continuou durante a tarde com convidados como Nilmário Miranda, Presidente da Fundação Perseu Abramo e ex-Ministro da Secretaria Geral de Direitos Humanos, que reforçou a necessidade da cultura para se mudar o Brasil. Alfredo Manevy, ex-secretário executivo do Ministério da Cultura e atual professor da Universidade Federal de Santa Catarina, que cobrou uma radicalização do processo democrático e a continuidade de políticas culturais que garantam essa democratização. “Apesar do avanço nas políticas culturais nos oito anos de governo Lula elas ainda precisam continuar se fortalecendo”, afirmou enquanto também reforçava a importância da agenda ampliada com a qual o Fora do Eixo trabalha dentro desse processo.
Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo, apontou a importância do nivelamento de informação e conhecimento entre os movimentos sociais para se promover a democratização no setor cultural e reforçou o fortalecimento e crescimento das redes em 2011. “A gente conseguiu criar oportunidade em cima da dificuldade”, afirmou. Da mesma opinião era Alexandre Santini, Movimento Pontos de Cultura, que afirmou que “2011 foi o ano perdido em que a gente se encontrou”.
No sábado, dia 17, a rede irá encaminhar uma carta de propostas baseadas em todas as discussões realizadas durante o ano e itensificadas durante o Congresso Fora do Eixo
Leonardo Santiago
En el estudio de PosTV nos reunimos anoche lxs participantxs del IV Congresso Fora Do Eixo en Sao Paulo, Brasil.
Pablo Capilé coordinó los intercambios dirigidos a hacer una puesta en línea de las temáticas principales que se debatirán en este encuentro.
Anoche aproximadamente 100 participantes locales e internacionales repasaron cuestiones básicas de logística (disponibilidad de Internet, limpieza de instalaciones y recepción de caravanas) pero también los núcleos duros del modelo FDE a debatirse los próximos 10 días.
“El papel principal del congreso es que la gente amplíe sus repertorios” señaló Capilé y enmarcó este proceso como un ejercicio de discusión mutua y de puesta en práctica de la desterritorialización que supone un sistema como el de Fora Do Eixo.
A la vez se listaron todos los tópicos de interés que reúnen a lxs asistentxs entre ellos: PosTV, Wiki, intervenciones artísticas, Salud, Femininas y más. Estas temáticas entonces están englobadas en los modulos de Banco, Unicult y PCult.
Experiencia FDE
Uno de los núcleos centrales de la reunión giró en torno de la experiencia de vida Fora Do Eixo. Acerca de la vivencia se señaló la importancia respecto de la “aceleración de procesos”, la “estimulación” y el “reflejo de las tecnologías” que se aprovechan de manera más orgánica cuando se trabaja 24 h x 7 en el hábitat Fora Do Eixo.
Intercambios más tarde, se confluyó en la necesidad de estímulo de más cuadros, más espacios y espacios de formación y, en especial, los esfuerzos orientados a involucrar a la red latinoamericana en la experiencia o “know-how” brasileño. A la vez se remarcó la necesidad de estimular los circuitos de festivales para que surjan nuevos productores que puedan apropiarse del Software Fora do Eixo. En este punto una de las participantes sugirió también romper el esquema de las disciplinas y pensar el modelo como transversal a las distintas artes.
Antes del cierre, cuando las agujas del reloj rozaban la 1.30 de la mañana, se lanzaron algunos ejes de acción finales. La premisa de comprender la geopolítica de este tipo de movimiento cultural para poder intervenir sobre los diferentes territorios a través de una tecnología adaptable a los requerimientos de cada contexto apareció como matriz para fortalecer los intercambios.
Dentro de sua não-grade, o Congresso Fora do Eixo está sendo palco de reuniões presenciais de todas as regionais Fora do Eixo do Brasil. Com a regional São Paulo não poderia ser diferente e, nos dias 14 e 15 de dezembro, SP realizou encontros que contaram com a presença massiva de agentes de coletivos de diversas partes do Estado.
As pautas de grande destaque nos dois dias foram, sem dúvida, as articulações necessárias para o desenvolvimento do Circuito Paulista de Festivais e a necessidade cada vez maior de investir em processos de formação. Contudo, antes dessas temáticas serem aprofundadas, aconteceu um balanço de como foi o ano de 2011 para a regional São Paulo, tendo em vista principalmente o Congresso Regional realizado em agosto desse ano e o nascimento da Casa Fora do Eixo São Paulo.
No interior, após o Grito Rock e até agosto, várias mudanças ocorreram e havia a sensação de que não sabia-se ao certo os quadros das gestões, o que demonstrava fraqueza na organicidade dos quadros e na frente de comunicação; nesse sentido, o Congresso Regional foi um momento-chave para a reaproximação dos grupos e para o entendimento de como era essencial a integração dos coletivos do Estado.
Durante esse balanço, houve também o entendimento de que a Casa Fora do Eixo na capital paulista, no momento inicial de migração, foi um grande celeiro de vivências para a rede em âmbito nacional – algo que vem se estendendo até agora e que deve se alterar processualmente para um foco cada vez maior no regional. Foi apontada a necessidade da regional ocupar cada vez mais o espaço da Casa focando no interior para estimular o surgimento e adesão de coletivos. Um paralelo interessante traçado foi que, se em Minas Gerais o modelo foi o de Festivais, em São Paulo foi e está sendo o de formação de quadros e, para isso, deve-se pensar em desterritorialização (agentes circulando entre coletivos) e, ao mesmo tempo, em regionalização, visando justamente o fortalecimento da mesma.
Através do balanço de 2011, a regional constatou os grandes avanços que houveram em relação ao começo do ano, bem como a sua importância e seu papel estratégico até por se encontrar na região de maior movimentação econômica do país. Pelos avanços obtidos, constatou-se também a responsabilidade que São Paulo tem perante a rede nacional no sentido de continuar avançando e aumentando seus indicativos, fortalecendo dessa forma a rede como um todo.
O desafio pra 2012, portanto, é que a regional esteja com todas as frentes fortalecidas para que haja nivelamento dos coletivos e distribuição de tecnologias. Para isso, foi reforçada a importância dos processos de formação, e os agentes enxergam no Circuito Paulista de Festivais a oportunidade para isso.
Unindo a necessidade de fomentar na prática esse Circuito e de capacitar os membros dos coletivos, as ações de formação como vivências, imersões, colunas e a constante circulação de agentes entre os coletivos tiveram sua relevância reforçada, e a importância dos coletivos novos se fortalecerem – o que fortifica ainda mais a rede.
Com isso, foram tirados encaminhamentos, como o mapeamento dos pontos fortes e dos gargalos de cada coletivo (pensando assim em imersões direcionadas), a sugestão de sair do Congresso já com um organograma de gestão das frentes das regionais e de tirar indicativos de agendas para as frentes, e um pré-indicativo de encontro regional no começo do ano que vem.
Por fim, algo extremamente motivante foi perceber o sentimento de que todos os presentes nas reuniões estão unidos com o objetivo de fortalecer e consolidar cada vez mais a regional São Paulo e fazer do Circuito Paulista de Festivais Independentes um celeiro de formação, circulação e de vivências do Fora do Eixo.
Texto relato de Juliana Lobo, colaboradora do Coletivo Ajuntaê.
As rodas de debates realizadas até agora no Congresso pelos artistas cênicos do Palco Fora do Eixo foram marcadas por alguns momentos pontuais ora surpreendentes, ora calculados. O que já se calculava eram os principais temas das discussões feitas até agora. Por culpa da estrutura elaborada para a dinâmica livre das conversas, alguns dos principais temas demandados por fazedores das artes cênicas na sociedade apareciam e eram levados ao círculo. Entre eles: sustentabilidade, articulações em rede, circulação e as imbricações entre estética e política.
Quando se apontava o Banco como um dos simulacros do Fora do Eixo, naturalmente a discussão escoava, perdurando por dois dias de Congresso, para as experiências de sustentabilidade entre grupos de teatro e circo. Uma dessas discussões foram feitas na mesa Tecendo a rede, desta quinta-feira. Algumas peças-chaves foram fundamentais para a construção de uma perspectiva que visasse tal problemática com certo otimismo, como a colaboratividade, as redes e a necessidade de que o movimento cênico saia de uma posição de miséria ante os desafios que lhe são impostos. Alguns dos provocadores para que essas discussões ganhassem corpo foram Wlad Lima, Márcio Meirelles, Marcelo Bones, Marcelo Carneiro, Filipe Farinha, Felipe Foca e Flávio Torricceli.
A distância que tradicionalmente separa palestrante e ouvinte foi borrada na medida em que os próprios convidados do Congresso e gestores do Fora do Eixo se inseriam nos círculos, escutando os assuntos que se propunham nas conversas livre, ou provocando algumas reviravoltas. A participação surpresa de outros convidados do congresso nas rodas sobre teatro e circo – podemos apontar Sylvie Duran, Alfredo Manevy, Florência Goldsman, Tarciana, em outros, foram bastante oportunas para que a não-grade ganhasse força e trouxesse experiências e questionamentos que provocassem reflexões e debates que se estendiam em outros momentos, outros bate-bocas e conversas.
A roda de conversas do CdC, frente audiovisual do Fora do Eixo, durante o 5º dia aconteceu na Estação de Transmissão do Congresso. Foram discutidos tópicos macros, como distribuição, financiamento, política e demais assuntos pertinentes. Pelo que pude observar nas questões de distribuição, percebi um destaque para a importância de fortalecer o relacionamento entre realizadores e cineclubistas. Nesse mesmo espírito coletivo, foram reafirmadas as facilitações de logística e melhora na eficiência das forças de divulgação perceptíveis nas experiências de lançamentos integrados. Uma pauta relacionado surgiu e levantou a necessidade de contabilização do público nos circuitos independentes.
Como mensagens para os realizadores de audiovisual, destaco um problema levantado sobre direitos autorais. Iniciativas de mapeamento e arquivamento da produção audiovisual independente esbarram na ignorância de alguns realizadores que não liberam os direitos de exibição de suas obras.
Esses tópicos estão todos relacionados à crescente formação do que ouvi ser chamado de Mercado Médio. Como incentivo para todos, falou-se da importância de frequentarmos cada vez mais os locais de exibição independente, inclusive utilizando do Circuto para divulgação de locais e programações.
Em relação ao financiamento da produção, percebi duas grandes frentes de atuação, a de políticas públicas, já com algumas conquistas que devem ser aproveitadas, e a do financiamento colaborativo propriamente. As políticas públicas se dão através da criação de leis, e não através de programas de governo. Foi apontado um caminho já desbravado de politização do movimento, com o fortalecimento da pauta legislativa que deve ser pensada para os mecanismos nacionais, estaduais e municipais. A aproximação com televisões educativas e comunitárias também é uma oportunidade de expansão da Rede, para além do eixo, afinal ouvi também que a batalha do Século XXI não é nuclear, mas sim audiovisual. Faz bastante sentido se pensarmos que estamos disputando a sociedade, não?
Eu aposto no financiamento colaborativo como uma solução independente e descentralizada para uma carência tão grande na (velha) realidade dos realizadores em geral. Ouvimos algumas experiências do site Catarse, que serviram de incentivo para apostarmos, literalmente, cada vez mais em aumentar as conexões entre realizadores e público. É uma oportunidade de desenvolvermos uma linguagem de conexão entre as duas pontas. Somente quando isso acontecer conseguiremos usufruir do pleno funcionamento das ferramentas de financiamento colaborativo.
Essas foram #IdeiasPerigosas que construíram a reunião de hoje do CdC, mas que podem ser aplicadas de maneira geral em nossa lógica de trabalho.
Texto relato de Fábio Merlim.